Posso até viver sem Poesias, mas nunca sem Vinho Tinto!

 


cotidiano

a mulher que lê cartas
taxou minha melancolia
de prenúncio de alguma coisa
embora a mim
só parecesse essa tristeza batida renitente mesmo
---
mas minha tristeza me alegra
porque sei que vou poder escrever dela depois.
tão tão garcia marquez nessa afirmação.
---
e eu fiquei tão feliz com um telefonema, esses dias,
sorriso de quem ganhou na boca de quem não tinha ganhado
grito de vitória contido, hilda, sim,
e depois criança morta pra mãe, fernando, sei que sim,
mas na hora que queria era gritar para cada amigo
que venci. orgulhem-se de mim.
---
pedir para que as pessoas
se orgulhem de você
é meio babaca.
tenho que me lembrar disso.
---
e fica me incomodando um poema que começaria:
"se a alegria me trair"...
com um jogo de palavras discretíssimo com a palavra
"alegria" e com aquela língua morta, o latim,
e no final eu vencia inexoravelmente tudo o que viesse.
mas nunca sai, o maldito poema.
---
o ano acabou.
dessa vez eu não viajei e assim
não houve uma quebra brusca.
os dias me parecem ligados
não vejo fronteira.
essas férias me aporrinham já
quero ir conversar na faculdade.
começar a consertar coisas já
por as coisas nos lugares certos.
---
li um texto do ivan lessa.
fantástico.
que coisas?
que lugares certos?

Soprado por b.m. às 13h48
[ ] [ envie esta mensagem ]





caminhei até onde

as tabuletas de pedra estavam:

destroçei minhas unhas e as pontas dos meus dedos

e quebrei o pulso e arruinei os ossos e os nervos nos braços

enquanto as porções de sangue vazavam dos punhos fechados.

 

eu tentei destruir

com uma humanidade interior antiga e estúpida

o que os gigantes de carne e aço e artérias cheias de petróleo

escreveram há três mil séculos usando

esses seus dentes amarelos, enormes como prédios de Manhattan.

 

Mas a frieza e a absoluta invulnerabilidade da pedra

já me haviam corrompido anos antes de nascer em mim quem sou.

e não pude, não tive forças nem coragem; e foi quando tentei

chorar, assim como o Poeta fez. Mas a mim também não me foi

permitido demonstrar fraqueza à luz da noite.

 

Eu quis ter arrancado meus olhos porque já não seguiria

um caminho humano de vigília e combate; a escuridão,

tinha corpo, era cálida, seu cheiro me guiava e seu sorriso

não precisava ser visto porque brilhava além da visão ordinária.

Eu quis ter arrancado meus olhos porque me sentia em casa, enfim.

 

As leis talhadas nas tabuletas de rocha:

Não podendo destruí-las, eu apenas me levantei e ri.

E agora meu riso ecoa corroendo deuses e corrigindo mundos.



Soprado por b.m. às 13h21
[ ] [ envie esta mensagem ]





se calhar de eu morrer amanhã,

   ou depois, tanto faz,

quero ter engravidado minha namorada por engano

     e quero que digam ao meu filho

que seu pai morreu como um homem e não como um

                       cão.

se eu morrer amanhã, mas, não obstante, meu espírito persistir,

  desejo que chorem no meu enterro

  muito mesmo, demais

pra eu saber que me amavam.

quero que digam aos meus avós que eu tentei ser metade

   do que sonharam

quero que repitam aos meus amigos dois terços do que eu

   sempre disse quando estava bêbado

(e só bêbado, porque sou um babaca)

quero que digam ao meu inimigo

   que nossos olhos se parecem

    mas que não vou admitir isso, mesmo morto.

pra minha mãe você diz que se morri, morri, é isso, é a vida

   que se é pra dizer alguma coisa a ela,

  que seja tão natural quanto todos os cafés da manhã.

digam a minha namorada que eu a amei.

(e matem, ou pelo menos dêem um tiro na perna

de todo filho da puta que for beijá-la daqui pro fim da vida)

ah, digam a posteridade

que morri por um sorriso, que morri por meu orgulho e que morri por minha palavra.

e me abandonem ao nada, enfim.

obrigado desde já.



Soprado por b.m. às 12h39
[ ] [ envie esta mensagem ]





Resposta

Pesco em Pascal

a palavra pia:

o coração arrazoa.



Soprado por Claire às 06h15
[ ] [ envie esta mensagem ]





efêmeras 3: conselho

descarte

descartes:

ame.



Soprado por b.m. às 10h57
[ ] [ envie esta mensagem ]





vou recolher meu
       tempo
dos interstícios,
   das falhas,
dos erros da estrada.

lá, onde se acumulam,
como água de chuva recente,
um minuto e alguns outros -
           remanescentes
              de horas dispersas,
indiferentes entre si.

de joelhos
com a boca
feito um animal
buscar nos vãos
do asfalto
o que me sobra do meu
ou o que esquecem do deles.

feito um animal
com a boca seca de sede
não obstante cheia da água
daqueles mesmos vãos.
movido pela intuição?
                       o instinto,
    irrefutável lógica da falta:
bebe agora pela vontade
que um dia há de ter.

por essa saudade prematura.
por uma fé ao inverso.

vou recolher meu
       tempo
dos interstícios,
   das falhas,
dos erros da estrada.



Soprado por b.m. às 01h27
[ ] [ envie esta mensagem ]





Letra Sem Música

     Você não vai pensar em mim

     E eu não vou pensar em você

     Você não vai partir assim

     E eu não vou partir sem ver

     Que sim

     Que você

     Não vai pensar em mim

     Quando eu abrir meus olhos no escuro

     Quando eu for dizer

     Aquilo que você vai saber

     Quando já for tarde

     Bem tarde para derreter

     Esse muro

     Então

     Você não vai pensar em mim

     E eu não vou pensar em você

     Quando as luzes falsas nos cobrirem

     Nem você, nem eu

     Vamos estar lá

     Para saber

     Que é o fim...



Soprado por Claire às 20h59
[ ] [ envie esta mensagem ]





efêmeras 2: definição

(serei feliz.)

o medo

nada mais

é

do que a troca

do sinal gráfico.

(serei feliz?)



Soprado por b.m. às 02h35
[ ] [ envie esta mensagem ]





Época de Pouca Magia

Num tempo de fantasia
Não é dificil acreditar
Que o amor verdadeiro
Um dia se vai encontrar

Dizem que é doce e poderoso
Que só sentindo saberá
Se uma vez começa nunca termina
E do caminho a pedra desaparecerá

Não é uma busca fácil
Com dragões e ogros vai lutar
Só se o coração for forte
Terá possibilidade de ganhar

Uma vez começada a jornada
Não vai poder parar
No final pode ganhar o amor
Ou sua alma morrerá

Não é mais tempo de magia
Mas há quem acredite na jornada
As vitórias são mais sutis
Mas a derrota...
Na derrota não se perde só a alma

Em época de magia
O amor podia tudo
Em época de magia...

Soprado por Trunkael às 10h51
[ ] [ envie esta mensagem ]





efêmeras 1: ciúmes

tudo o que eu queria

era arrastar

a cabeça dele

pelo asfalto.

só isso, só.

(mas passa, isso passa)

(que tudo o que ele fez foi atravessar a rua)



Soprado por b.m. às 18h10
[ ] [ envie esta mensagem ]





rotina.

medo do vazio de olhar para mim e de nada ver só uma página em branco com mágoas calcadas por uma caneta sem tinta assustadora visão de um rapaz sem sonhos entregue a uma banalidade monótona a que chamam de rotina rotina esta que é a corda velha e resistente que me amarra à vida caminho pelos dias de olhos ávidos de sonhos na esperança de sentir aquela brisa fresca que me acaricia e apaixona o desejo de ter que eu acorrento em histórias que nem eu acredito numa fuga à dor na senda da melancólica dor de não sentir mergulho num vazio resta-me saber quando voltarei a emergir

 

as cicatrizes tornam-me mais belo.



Soprado por Raphael às 21h46
[ ] [ envie esta mensagem ]





eles silenciam...
...aproveita e espia agora, o interior
         da minha
                    cabeça
essa saleta
       e  n  o  r  m  e
                            e minúscula
(dois deles se manifestaram a pouco
  por isso lembro deles. mas não são só)
   e   x   i s  t  e
o cara que diz que todo mundo mente.
"ela está mentindo
   é tão óbvio
      está mentindo, cara,
             onde está a sua inteligência?
                     veja as evidências!
                                   é mentira! mentira!"
(mas esse eu consigo calar.
    com tato eu lhe sugiro afeição pela confiança)
                e    x i s   t    e
o cara que diz que nada é bastante.
"não é o bastante
 não é o bastante
 não é o bastante"
repetitivo, redundante, remoe glórias, acha defeito.
"não é o bastante! você merece
    mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais"
(tentei matá-lo. dei-lhe um tiro nas fuças, para que calasse.
    mas não-morto, pedaços - quebra-cabeça:
         "não é o bastante não é o bastante não é o bastante"
(há de me fazer perder tudo
  sua ladainha não se encerra. sua carência não se satisfaz)
             mas não só esses
                                   e    x   i s t em mais, muitos mais
(e, em algum lugar)
          existo eu.



Soprado por b.m. às 02h09
[ ] [ envie esta mensagem ]





Ah, dias de chuva.

De abraçar com o braço outro braço, meu
Sutil rancor de não ter sob os ombros estes toques, teus
Anseios, pensamentos, que afastam tua lembraça do que fomos
Ou somos ainda fantasmas a vagar nestes cortantes e frios,

Ah, dias de chuva.

De face molhada e corpo lânguido, perdendo calor, meu
Desejo de ignorar todo o mundo e seus males com os afagos, teus
Sopros e palavras que, docemente, embalavam o que fomos
E somos, já hoje, distância, poesia, minúcias que caem do céu nestes,

Ah, dias de chuva.

(Lara Vedder)

Soprado por Trunkael às 21h15
[ ] [ envie esta mensagem ]





Versos do Inefável

     Seguro este momento

     fechando a mão:

     há fendas entre

     meus dedos, porém.

 

     A agonia que

     vela em mim

     não me deixará -

     (ela) santifica-me.



Soprado por Claire às 17h16
[ ] [ envie esta mensagem ]





da vida
eu quero tudo.
o excesso é fundamental.
estas são palavras que defendem
o exagero
em detrimento do meio termo.
nego as doses medidas distribuídas pelos dias
porcentagens, limites, fronteiras
a tudo aquilo
que vale a pena.
tudo, eu quero tudo.
não quero a escolha conflituosa
entre o bem e o mal.
eu quero o bem e o mal.
eu quero o céu e o inferno.
jesus cristo e lúcifer, a estrela da manhã.
isto e ainda mais disto, muito além disso.
quero a extrema sabedoria
e a mais feroz ignorância.
estas são palavras que não compreendem
como alguém observa um
oceano de água doce
e tudo o que retira
é um copo, uma xícara de chá
pra tomar com muito zelo
"cuidado, cuidado, senão acaba"
overdoses
em detrimento das crises de abstinência
bem controladas.
na vida
eu proponho exigir.
exigir... tudo.



Soprado por b.m. às 13h31
[ ] [ envie esta mensagem ]